segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Psicologia Educacional: uma construção

Ao observarmos a atuação da Psicologia Escolar nos dias atuais, perdemos de vista como foi sua origem e desenvolvimento ao longo da história. Com tantos caminhos percorridos, podemos fazer uma retrospectiva geral de como surgiu e se constituiu a Psicologia Escolar e Educacional que conhecemos hoje.

O contexto histórico será abordado como pano de fundo de várias transformações no modo como a Psicologia veio a contribuir no ambiente escolar, tornando esta cada vez mais preparada para lidar com as demandas do ensino e aprendizagem.

Psicologia Escolar no Brasil:
- Começou com os índios, antes da colonização.
- Durante a colonização, os jesuítas catequizavam os índios, ensinando a ler a bíblia.
- 1890: na república, o ensino torna-se obrigatório. O grupo de alunos fica sob a tutela de 1 professor.
- Final do séc. XIX: Psicologia é reconhecida como ciência autônoma, no âmbito internacional.
. Nesse período surge a discussão do fracasso escolar: por que nem todos aprendem igual?

. Psicologia se associa à Pedagogia, mas ligada à concepção de avaliação e análise em laboratórios (Psicologia Experimental).
- 1915: Psicanálise chega ao Brasil e começa a ser agregada à Psicopedagogia.
. Ainda com enfoque na criança como problema; crianças vão para clínica com queixa escolar.
. Caráter qualitativo: o aprender ou não aprender é influenciado pelo ambiente (familiar) .
- 1920: Pós-guerra traz a "educação para a paz", tendo como instrumento a escola obrigatória.
. Surge a Escola Nova como "escola ativa", pautando-se em Piaget e na ideia de que o ambiente agora deve ser considerado além do familiar, também na relação com a cultura e escola.
. Ensino não dirigido, voltado para a interação. Aluno mais livre.
- 1930: há registros de que o foco está na criança (cadeiras não são mais fixas ao chão).
- Pós-guerra: escola é centro de convivência das diversidades (tira foco do aluno-problema).
- 1950: o problema escolar começa a se voltar para o meio social da criança (cultura e escola).
- 1962: profissão de Psicólogo é reconhecida no Brasil. Reforma de base na Educação.
- Golpe Militar inibe experiências libertárias na escola.
- 1970: Psicólogos vão à escola para trabalhar com professores e gestores.
. Teoria atrelada à carência cultural: por que crianças de classes populares não aprendem?
. Crítica se volta para a Psicologia na Educação: causou ausência do Psicólogo na escola.
- 1980: estudantes da classe média vão para escola particular.
. Transição democrática: é preciso construir uma nova Educação e uma nova Psicologia.
. Necessidade de ver a queixa escolar em suas origens, Psicologia deve sair da área de saúde e ir para o campo escolar, entendendo o fracasso escolar como consequência dos processos de escolarização.
- 1990: surge a ABRAPEE (Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional), como espaço de organização e políticas públicas dos Psicólogos Escolares.
- Atualidade: assistência de Psicólogos e Pedagogos nas equipes interdisciplinares para a diversidade escolar.

É importante observar que o campo de atuação da Psicologia Escolar e Educacional está em constante construção, em consonância com as demandas escolares e com o que se vive a cada momento histórico.

Para assistir ao documentário sobre este tema, acesse o link abaixo:
Construção de um novo homem

domingo, 18 de setembro de 2011

Provocações sem limites

Bullying é uma expressão da língua inglesa que faz menção ao ato de amedrontar outra pessoa. Nos últimos anos, esta palavra está sendo muito utilizada no contexto escolar, fazendo referência aos maus-tratos a que são submetidos algumas crianças e adolescentes no ambiente educacional. 

Talvez os maus-tratos a que o bullying se refere não sejam um acontecimento recente, mas foi somente de alguns anos pra cá que a sociedade tomou conhecimento da gravidade deste tipo de provocação, que costuma acontecer entre os estudantes, dentro da escola e nos seus arredores.

A ocorrência do bullying pode causar inúmeros danos para a criança ou adolescente que sofre tal provocação. Desde um rendimento escolar inferior ao que antes era obtido até lesões corporais graves (chegando a causar a morte), passando por chantagens e penalidades absurdas, caso a criança agredida não cumpra com o que dela está sendo exigido (pelos colegas).

Um retrato dessa realidade pode ser visto no filme espanhol "Bullying - Provocações sem Limites":


Neste filme, Jordi, um garoto de 15 anos, perde o pai e se muda para outra cidade junto de sua mãe, com o intuito de que, em outro ambiente, ambos se sintam melhor para superar a perda. Na nova escola, Jorgi conhece uma turma de valentões, onde Nacho é o líder e também seu futuro agressor. No desenrolar da história, Jordi experimenta uma sucessão de restrições a sua vida, rotina, estudos e relações, por causa das provocações (muitas vezes chegando a ser agressões físicas graves) que Nacho lhe impõe.

É lamentável constatar que esse tipo de comportamento agressivo possa surgir na escola, um local com a proposta de trazer a educação e uma melhor socialização para crianças e adolescentes.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A necessidade de estar focado


É muito importante não perder o foco. A noção de pra onde se vai ou de onde se quer chegar. Perder o foco desestabiliza. Esquecer do alvo tira energia, tempo. Em uma área tão abrangente, com tantos horizontes surgindo, o psicólogo escolar deve sempre considerar alguns fatores mais fundamentais para a sua atuação frente à demanda escolar, dentre eles:

  • Trabalho participativo com todos os setores do processo educativo;
  • Fortalecimento da relação professor/educador;
  • A demanda escolar como ponto de partida na escola/instituição;
  • Fortalecimento da relação professor/aluno/família/escola;
  • Entender a queixa escolar não só como reflexo, mas como fruto das relações escolares;
  • etc.
Enfim, a finalidade da atuação do psicólogo na Educação deve estar no compromisso com a luta por uma escola democrática, de qualidade e que garanta os direitos de cidadania para as crianças e adolescentes. É preciso que o psicólogo compreenda que no cenário escolar, da mesma forma que outros técnicos presentes na escola, ele não é o protagonista da cena. Seu trabalho é nos bastidores, buscando promover o educador em suas necessidades de reflexão e de construção de conhecimento. Para isso é fundamental que tenha uma visão integrada desse educador-sujeito, pois seu trabalho é ajudá-lo a se descobrir, a se desvelar, alcançando segurança, autonomia na sala de aula.

"Sou a favor dos psicólogos práticos, a favor do trabalho prático e, portanto, em sentido amplo, a favor da ousadia e do aprofundamento de nosso ramo da ciência na própria vida". Vygostsky, 1968.

Curiosidade: educação na África

Morei 3 anos no Senegal, mais precisamente em uma aldeia no extremos sul do país chamada Sintiouroudji. Certa vez estava passando próximo a uma pequena escola (as escolas nas aldeias, normalmente, são todas feitas de palha sustentada por bambus) e, ao ouvir o professor fazer uma pergunta para a classe, fiquei espantado ao ver que todos os alunos se prontificaram para responder.

Uau! Esse professor deve ser muito bom. Que sensação gostosa e que satisfação de poder ter toda a classe assim, tão "ávida" por conhecimento! E assim, em uma dessas vezes em que passava por perto, decidi, com a permissão do professor (seu nome era Mr. Ndiay), entrar e assistir um pouco da aula.

Logo entendi tudo! Ele dava aula com um pedaço de pau na mão. Ao fazer uma pergunta, quem não quisesse responder seria por não saber logo, apanharia. E quem levantasse o braço para responder e respondesse errado, apanharia também. Solução das crianças para apanhar menos? Todos levantam o braço na esperança de não serem chamados...

Obviamente não foi fácil pra mim ver aquilo. As crianças levando pauladas no rosto, chorando enquanto voltavam para seus lugares. Minha primeira reação foi levantar e abordar o professor com certa autoridade até, mas para ele, aquilo era algo perfeitamente normal. Pensei logo nos pais. Como reagiriam se soubessem? Será que eles não se juntavam para resolver esse tipo de coisa e eles mesmos dessem uma surra no Mr. Ndiay, de preferência com o mesmo pedaço de pau que ele batia nos filhos deles?!

Mas aí eu descobri que existem barreiras culturais. Até certo ponto consigo e devo "interferir" em uma outra cultura e aquilo para eles, seja para o Mr Ndiay (e todos os outros professores), para as crianças (sim, elas eram acostumadas. Na verdade, só paravam depois de apanharem) ou para os pais (certa vez os pais me deram um pedaço de pau para acalmar os filhos deles que estavam muito bagunceiros enquanto eu os ensinava em uma escolinha de basquete...). Enfim, para o contexto daquela região, era perfeitamente normal! Mas vai fazer isso aqui...

Psicólogo Escolar só fica na Escola?!


A Psicologia Escolar, como campo de atuação, é muito ampla e abrangente. No blog estaremos citando, de vez em quando, algumas dessas áreas e formas de atuação e, pra servir de estímulo, aqui vão alguns exemplos:

  • Projetos de inclusão social; 
  • Planejamento de ações sociais e comunitárias;
  • Programas na área do idoso assim como na conscientização da relevância do idoso e dos cuidados com os mesmo;
  • Prevenção de DSTs;
  • Programas de formação de educadores;
  • Órgãos de controle social;
  • Trabalhos com o sistema presidiário;
  • Países vítimas de desastres naturais;
  • Orfanatos;
  • Igrejas;
  • Etc.

Com toda essa amplitude e possibilidades, o psicólogo precisa sempre estar atento às finalidades do trabalho que deve desenvolver, sempre se policiando para não virar somente mais um animador ou educador social, mas buscar trazer sempre à tona as especificidades da Psicologia para a Educação.

Psicologia Escolar: primeiras direções

Como campo de atuação no Brasil, a Escola foi um dos primeiros espaços institucionais de atuação dos psicólogos. Algumas discussões na década de 1980 trouxeram força para repensar a tarefa do psicólogo, visando melhorar as práticas pedagógicas a partir de algumas mudanças no referencial teórico.

Esses novos referenciais precisavam compreender a Psicologia da Educação através de alguns direcionamentos, dentre os quais:

- os fenômenos escolares como resultado do processo de escolarização e da relação instituição/ensino/relacionamentos;

- a aprendizagem e o desenvolvimento humano como partes de um mesmo corpo, inseparáveis, articulando tanto o biológico, como o psicológico e o histórico dos indivíduos, sejam alunos, professores ou pedagogos;

- elaboração de instrumentos e técnicas psicológicas específicas para a aproximação e conhecimento da realidade dos complexos fenômenos educativos.

Esse movimento de críticas e rupturas foi se fortalecendo e agora é possível afirmar que a Psicologia Escolar é não só uma área de estudo da Psicologia, mas também érea de atuação e formação do profissional que tem interesse em entender a educação enquanto resultado das relações que acontecem dentro das escolas.

Como campo de estudo e de atuação, a Psicologia Escolar vai para além das "quatro paredes da escola" e passa a permear diversos outros campos que são também, de certa forma, educacionais. Mas isso vai ficar para um próximo post...